Somos (muito) mais fortes do que pensamos

07/10/2015
Somos mais fortes do que pensamos

Antes de decidir dar um basta em nossa antiga vida, Melissa e eu passamos por um longo processo de reflexão. Não foi fácil “puxar o gatilho”. Precisamos de muita inspiração. E tal inspiração veio de fora. Lemos blogs, livros, assistimos muitos e muitos vídeos, pois nossos amigos e conhecidos não estavam na mesma sintonia.

Um desses vídeos, em particular, foi marcante para mim. Um americano, um tal de Scoot Dinsmore, deu uma palestra altamente inspiradora no TED. Ele havia criado uma comunidade com milhares de seguidores. E criou um negócio milionário a partir dessa comunidade. O que ele fazia? Ajudava as pessoas a encontrarem o trabalho que amavam. E o fazia muito bem. Em seu site, disponibilizava uma porção de ferramentas interessantes para ajudar qualquer um a encontrar seu caminho na vida. Contabilizava com orgulho o número de pessoas que haviam pedido demissão depois de conversar com ele.

Scott decidiu passar o ano de 2015 viajando com sua esposa Chelsea. Venderam tudo o que tinham em São Francisco, nos EUA, e saíram pelo mundo. O objetivo era encontrar pessoalmente as pessoas que formavam sua comunidade. Passaram pela América do Sul, América Central e Europa.

Há cerca de um mês, decidiram desviar o roteiro para a Tanzânia, pois Scott tinha um sonho antigo de escalar o Monte Kilimanjaro, o mais alto da África. E, numa perversa ironia, foi justamente realizando um de seus sonhos que ocorreu uma tragédia. Durante a subida, uma rocha caiu e atingiu Scott, que faleceu ali, aos 33 anos de idade.

Scott deixou um legado maior que sua própria vida. O mais curioso sobre Scott é que ele criou tudo isso sem ser uma figura especial. Não tinha uma aura intelectual, não parecia um ser iluminado, um guru. Ao contrário, ele era bem normal, e falava constantemente de seus defeitos. Isso transmitia uma mensagem clara e importante para mim: “Se ele conseguiu, por que eu também não posso?”. “Encontrar” o Scott foi decisivo para puxar o gatilho, abandonar Brasília, e me mudar para Montevidéu.

Eu havia trocado algumas mensagens com ele, mas não era alguém próximo a mim. Mesmo assim, quando soube, fiquei em estado de choque. Foram dois dias até acalmar o coração. Tinha vontade de conhecê-lo pessoalmente. Ele havia feito uma diferença enorme na minha vida.

Milhares de pessoas lamentaram sua morte tão prematura. Mas eu ficava pensando como deve ter sido para sua mulher, que tinha planos de uma vida inteira com ele, enfrentar todo o sofrimento de uma perda tão repentina e inesperada. Há alguns dias, Chelsea enviou um e-mail para a comunidade do Scott. Um e-mail tão belo, que gostaria de compartilhar um trecho que me tocou bastante:

Não há palavras que possam descrever totalmente a descrença que eu ainda sinto, a dor de acordar todas as manhãs, e a incerteza na vida que eu tenho à minha frente. […] Mas, se há uma coisa que eu aprendi mais e mais durante a nossa viagem, é que nós somos muito mais fortes do que pensamos. Se alguém tivesse me dito que isso ia acontecer, eu iria me trancar em um quarto escuro e nunca mais sair. Mas a resiliência do espírito humano me surpreendeu. Em vez de mergulhar nas profundezas do que eu não tenho, eu estou agarrando-me ao que eu tenho.

Eu, quando passo por situações de perda, costumo pensar sobre a minha própria vida. E foi isso que fiz quando soube da morte do Scott. Acho que não há como passar pela vida sem problemas, conflitos, desgostos e, até, pequenas ou grandes tragédias que nos atingem ao longo de nossa estadia nesse planeta.

Mas passamos… Sobrevivemos… E nos fortalecemos. Somos fortes para sair da cama todos os dias, por mais que seja difícil às vezes. Somos fortes para superar corações partidos. Somos fortes para levantar após cada queda, para recuperar tudo o que perdemos. Somos fortes para nos curar de doenças, até das que, há pouco tempo, eram incuráveis. Somos fortes para enfrentar as mais duras perdas.

E quer saber? Também somos fortes para enfrentar os nossos medos. Somos fortes também para bancar nossos sonhos, para arriscar, para corrigir nossos erros, para cair e levantar mais uma vez, e mais outra… Meu caminho e o do Scott se cruzaram no momento preciso, e eu agradeço a Deus por isso! Ele morreu aos 33 anos, e, como afirmou seu pai, viveu mais do que muita gente que carrega uma vida inteira nas costas.

 

Bruno

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7 Comments

  • Reply Fabio Henrique 01/12/2015 at 23:47

    Bom primeiramente parabéns pelo blog que venho acompanhado algumas semana e tem um conteúdo muito bacana.
    É engraçado que muitas pessoas percorrem os mesmos caminhos, bem parecidos com que é falado no primeiro parágrafo, bastante reflexão, vídeos, vídeos, blogs, textos, histórias e não sei se é o caso da maioria mas acredito que sim primeiramente começamos a nos inspirar com histórias incríveis, romantizadas demais, trajetórias completas de sucesso sem falhas, problemas, momentos difíceis, meio não querendo enxergar as situações reais que podem ter ocorrido, não que quem conte essas histórias falte com a verdade mas é do ser humano contar as vitórias e não dificuldades para chegar nela.
    Ai vamos nos aprofundando e começam a aparecer histórias incríveis como essa mas que infelizmente tiveram um fim trágico e prematuro e são essas histórias que começamos a encher as nossas de mentes de ” e SE” “e SE” “e SE” ” e se não tivessem ido”, “e se continuassem na zona de conforto”, “e se desse certo”.
    Outras histórias que me chamaram atenção a esse respeito foram:
    A de um casal sueco também realizando um sonho de foram atropelados no Acre e infelizmente a mulher faleceu.
    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/09/1682286-casal-sueco-que-viajava-de-bicicleta-e-atropelado-no-acre-mulher-morre.shtml

    E a história de Christopher McCandless que é antiga, inspiradora e eu não conhecia já virou livro e até filme, vim à conhecer através de um texto também incrível sobre felicidade que usa a história dele como base
    http://papodehomem.com.br/o-homem-mais-rico-e-aquele-cujos-prazeres-sao-mais-baratos

    E de fato a visão que tenho a respeito até o momento é exatamente o que é dito no texto, sim somos mais fortes do que pensamos, que apesar de todos os questionamentos, fracassos, ou finais trágicos todos eles estavam realizando um sonho, vivendo intensamente de acordo com o que acreditavam, sendo felizes a sua maneira, o que por si só já torna suas histórias dignas de respeito e inspiração pois não aceitaram a imposição da zona de conforto, e do que a sociedade julga como correto e de única verdade.
    Sucesso a vocês em seus projetos e tudo de bom!!!!!!

    • Reply Bruno & Mel 02/12/2015 at 09:33

      Muito Obrigado, Fábio, pelo feedback. Como eu escrevi no texto, não conhecia o Scott, mas ele faz parte de minha vida e me ajudou a tomar decisões difíceis, das quais não me arrependo. Fiquei bastante chocado com sua morte. Para algumas pessoas, essas histórias (incluindo as que você mencionou) poderiam ser um balde de água fria. Para mim não. Justamente porque a vida é muito curta e imprevisível é que devemos arriscar e tentar vivê-la plenamente.
      Abraço e continue por aqui.
      Bruno

  • Reply Prof. Gilmar Tavares 09/10/2015 at 17:07

    “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”. (Carlos Drumond de Andrade).

  • Reply Stephanie Gomes 08/10/2015 at 12:32

    Mais um post incrível de vocês! Mandei o vídeo e o site dele para olhar em casa mais tarde com calma.
    E, nossa, me identifiquei muito com o penúltimo parágrafo. Não me acho tão forte porque sou bastante sensível, mas se pensar nas coisas que já passei (tive uma doença rara e gravíssima no sangue, perdi minha mãe quando tinha 19 anos, sofri de síndrome do pânico e hipocondria) e to aqui, firme e forte, acreditando nos meus sonhos, batalhando por eles e vivendo feliz! Sou muito forte mesmo… Claro que nem tudo é perfeito e eu ainda sofro por causa das perdas e problemas que tive de vez em quando, todos deixaram uma marca em mim, mas sigo acreditando na beleza da vida.

    Fiquei super feliz refletindo sobre isso depois de ler o texto, obrigada por me proporcionarem isso!

    Beijos

    • Reply admin 08/10/2015 at 14:35

      Stephanie, ficamos felizes mais uma vez com sua mensagem! Estamos te mandando um e-mail…beijos.

  • Reply Juliana Amado 08/10/2015 at 12:01

    Já tem algumas semanas que acompanho o trabalho de vocês, e não poderia me sentir mais feliz. Estou num processo de construir minhas mudanças de vida, e esses conteúdos são tão alentadores quanto estimulantes. Obrigada por produzi-los!

    • Reply admin 08/10/2015 at 15:02

      Oi Juliana
      Obrigada pela mensagem! Ficamos muito felizes que você está nos acompanhando e que nosso conteúdo está contribuindo com seu processo de mudança. Por sinal, entrei em seu blog. Muito legal! Para dizer a verdade, sou um aficionada em DIY, decoração e manualidades. Para você ter uma ideia, Bruno e eu fizemos praticamente tudo em nosso casamento. Toda a decoração, o buquê, os noivinhos, etc. Além disso, decoramos o quarto de nosso pimpolho Martin (quando morávamos em Brasília). Acho muito relaxante fazer tudo com as próprias mãos. Tenho o sonho de um dia aprender a costurar! Enfim, olha eu aqui me perdendo no assunto! kkkk Forte abraço! Melissa

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